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Robios ajuda a tornar o mundo digital mais acessível para idosos
Clara Oliveira e Sophia Pacheco
13/09/2025, às 15h00
Art. 3º É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar à pessoa idosa, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. (Redação dada pela Lei nº 14.423, de 2022).
O artigo citado, presente no Estatuto da Pessoa Idosa, criado em 1º de outubro de 2003 e que completa 22 anos de vigência esse ano, estabelece alguns direitos imprescindíveis da pessoa idosa (aqui entendido, de acordo com a Legislação Brasileira e com o próprio Estatuto, como indivíduos de mais de 60 anos de idade). O que fica claro, ao longo de todo o regimento, é a necessidade de garantia desses direitos de forma integral, com responsabilidade compartilhada entre sociedade geral e poder público, promovendo, mais que a sobrevivência física, a sobrevivência cultural e mental desses sujeitos.
No Brasil, porém, cumprir essa promessa legal ainda é um desafio diário. E bem exaustivo, devido à falta de comprometimento social e estatal.
Quando se analisa a sociedade brasileira mais profundamente, com seus 32,1 milhões de idosos ou 15,8% da população do país (de acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE), o que se percebe são movimentos contrários de uma vivência de qualidade.
O “envelhecer” se tornou, ao contrário de um processo natural da vida, um sinônimo de falta de autonomia, exclusão e abandono.

Esse cenário caótico do “envelhecer” contemporâneo se torna ainda mais visível no campo das tecnologias digitais, visto que o seu avanço acelerado transformou profundamente a forma como nos comunicamos e nos relacionamos enquanto coletivo. Entretanto, essa transformação não foi acompanhada por todos os grupos etários da mesma forma: justamente os idosos, que cresceram em um mundo analógico, na maioria dos casos, enfrentam dificuldades para se adaptarem a essa nova realidade.
Por meio das pesquisas realizadas pelo IBGE, tanto em 2022 (censo oficial) quanto em 2024 (relatório trimestral da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), detecta-se, no que se refere à terceira idade e o uso de tecnologias, um contexto alarmante em dois aspectos: a desconexão total e o uso limitado.
Respectivamente, dentre os 20 milhões de pessoas totais que não utilizam a internet, 66% estão acima de 60 anos e alegam não saber operar dispositivos digitais; ao passo que 69,4% dos idosos, que afirmaram terem utilizado a internet em 2024, enfrentam desafios em relação à falta de familiaridade e domínio.
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Para Geralda do Carmo, 74, aposentada e que se enquadra nos 69,4% que utilizam aparelhos digitais, a experiência é um misto de amedrontamento e frustração: “Sinto medo pois existe muitos golpes, notícias falsas e vírus que danificam o aparelho, e isso me gera uma insegurança em mexer com tecnologias. Sinto-me incapaz, pois gostaria de saber mexer em tudo”, afirma. O relato de Geralda mostra que o aumento “milagroso” do uso de TIs pelos indivíduos dessa faixa etária, apontado pelas pesquisas, mascara que o simples acesso não garante inclusão digital de fato.
Assim sendo, segundo ela, mais que ter acesso ao suporte tecnológico, é necessário garantir uma educação adequada para o uso desses recursos. A falta desse conjunto gera dependência que não é saudável: “Minha formação escolar foi mais básica e uma educação voltada especificamente para o uso de aparelhos facilitaria o processo e evitaria que eu precisasse pedir ajuda o tempo todo”, comenta.

Geralda possui celular e acesso à internet, porém apenas isso não garante uma inclusão digital | Foto: Arquivo pessoal (2025)
Já Erica Cristine, 63, outra entrevistada e que atualmente trabalha como diretora em uma escola de música, afirma que sua realidade é um pouco diferente das outras pessoas. Para ela, sua experiência é fundamentada em um processo contínuo de desenvolvimento e troca de conhecimentos: “Não sou ‘expert’ em tecnologias digitais, mas eu não passo aperto. Eu sou daquelas que mexo, e quando não sei, pergunto. Eu gosto de aprender, não gosto de pedir ‘faz pra mim’. Por isso que eu não me incomodo com o ‘pedir ajuda’. Eu falo que a gente não nasce sabendo de tudo. E tem coisas que um vai saber mais que eu e outras coisas eu vou saber mais que ele”, diz.
A diretora salienta, dessa forma, que a sua dependência é momentânea, já que evidencia uma relação com a tecnologia que pode ser mediada pela curiosidade, abertura ao erro e valorização do aprendizado. Érica ainda ressalta que “O ‘60+’ de antes não é o mesmo ‘60+’ de agora. É lógico que eu não tenho facilidade, mas eu tenho curiosidade e não me importo de perguntar. Afinal, eu sinto no meu corpo, não na minha cabeça”.
Se a vontade de ir além sobrevive, qual a desculpa que a sociedade insiste em criar?

Erica possui uma relação de curiosidade e abertura ao aprendizado com as tecnologias digitais | Foto: Arquivo pessoal (2025)
Geralda e Erica, apesar de possuírem experiências, realidades e histórias não tão semelhantes, compartilham algo essencial: o mesmo desejo de se conectar com o mundo digital de forma autônoma e sem impactos negativos. Ambas mostram que a exclusão digital ficou “gagá” e que a oportunidade de aprender, experimentar e participar ativamente, com o máximo de respeito ao sujeito e à individualidade, é essencial.
Todavia, o que mais se sobressai continua sendo as experiências negativas. Existem tantos outros idosos que, embora tenham contato com dispositivos digitais, permanecem à margem de sua plena utilização. Não possuem autonomia. E a ideia de “emancipação” é apenas algo longínquo, quase impensável e verbalizado.
Em um momento em que se discute bastante sobre “hiperconectividade”, em que tudo está cada vez mais interligado ou apoiado em uma base digital, desde fluxos de comunicação ao lazer, essa conjuntura da exclusão digital e isolamento desses indivíduos é usual. Se o mundo se organiza em torno da tecnologia, negar o acesso ou o acesso crítico, responsável e de qualidade, a esse ambiente, é negar, em alguma medida, o pertencimento social.

A exclusão digital por idade não é apenas um obstáculo que envolve a parte técnica, o famoso “sabe mexer ou não”, mas também são os desdobramentos de um impedimento que envolve o exercício da cidadania. É a disparidade de acesso, em vários níveis já comentados, que viabiliza o aprofundamento de desigualdades sociais.
São problemáticas que contestam a ideia de que a população idosa possui direitos a uma cidadania digital, ao aprendizado, ao desenvolvimento e à conexão. Essa perspectiva de exclusão revela uma marginalização mais profunda, que se manifesta na ociosidade do campo mental, mais especificamente na parte do desenvolvimento do emocional e do cognitivo dos longevos, que compromete o acesso de qualidade aos recursos tecnológicos e o bem-estar dessa população.
Para Patrícia Bet, graduada em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSC) e doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Bioengenharia da Universidade de São Paulo (USP), há uma tendência que explica a mudança na forma como a sociedade enxerga, desrespeitosamente, os idosos: “As transformações sociais, culturais e tecnológicas das últimas décadas têm contribuído para o aumento do preconceito etário, ou etarismo. Observamos uma desvalorização na importância da trajetória de vida e da experiência, anteriormente associadas aos idosos”, expõe.
Para Bet, o preconceito contra sujeitos dessa faixa etária não se restringe a atitudes explícitas de exclusão, mas se manifesta também de maneira sutil, com a criação de narrativas sociais, ao observar que “Os idosos são frequentemente associados a estereótipos negativos, como a ideia de diminuição da capacidade cognitiva ou presença de demências, que reforça ainda mais esse preconceito através de atitudes discriminatórias”. Melhor dizendo, o estereótipo da “deterioração mental” tornou-se comum, uma visão negativa que promove um destino final e irreversível para todos os idosos, colocando-os à margem do desenvolvimento humano e tecnológico.
Compreende-se uma tendência do imaginário coletivo de rejeição à diversidade de vivências presentes nessa etapa da vida. Entre as consequências para os idosos, estão: a naturalização de práticas de infantilização, a superproteção e a exclusão em ambientes sociais e tecnológicos. Isso causa danos emocionais que comprometem a autoestima desse grupo, gerando um ciclo de autossabotagem, no qual muitos internalizam tais visões e passam a duvidar de sua própria capacidade de aprender ou se adaptar.
Geralda do Carmo também comentou sobre esse ato de tratar uma pessoa mais velha como se fosse uma criança, advinda da constante carência de assistência: “Tenho sempre que pedir ajuda por medo de fazer algo errado, pois a sociedade tende a acreditar que somos incapazes de aprender a lidar com as tecnologias em razão da idade”, relata. Cada tentativa de utilizar um recurso digital é acompanhada pelo temor de errar.
Ao negar oportunidades de aprendizado, minimizar conquistas ou tratar o idoso como “criança”, o coletivo cria uma atmosfera na qual a própria exclusão se auto alimenta: quanto menos contato, maiores são as dificuldades cognitivas observadas, que mais alimentam o etarismo, reiniciando o ciclo.

Preocupação, desânimo e frustração: sintomas que marcam as experiências digitais sêniores | Foto: GPointStudio, Freepik (2021)
Como consequência da frustração, insegurança, sensação de ultrapassagem, falta de apoio, dentre tantas outras emoções negativas, surgem os problemas cognitivos. Idosos discriminados do contato pleno com o universo digital, condicionados a uma situação de isolamento e autossabotagem, acabam por perder diversas oportunidades de estímulo mental, como habilidades de atenção, memória e raciocínio, acelerando processos de declínio cognitivo. Querendo ou não, o estereótipo da “deterioração mental” volta com tudo, mas o que a sociedade não percebe é que ela mesma força essa circunstância de forma estrutural.
Destarte, especialistas em psicologia e neurociência apontam que, para contornar tal panorama, a inclusão digital deve ser entendida como uma implicação séria, que ultrapassa o campo da hiperconectividade e adentra em questões de saúde mental e cidadania. De acordo com Tainá de Rafael, psicóloga graduada pela Universidade Federal de Catalão (UFCAT), “É importante ressaltar que a inclusão envolve a participação ativa e autonomia na sociedade, além disso, é necessário que as tecnologias, nesse caso, sejam também pensadas para esse público. É através dessa inclusão que o sujeito encontra espaços de reconhecimento e valorização da própria identidade e pode criar comunidades, assim, a inclusão digital deixa de ser apenas um recurso tecnológico e passa a ser uma ferramenta de promoção de saúde mental, bem-estar e cidadania”.
Com isso, histórias como a de Geralda e Erica, sustentadas pelas exposições de Patrícia Bet e Tainá de Rafael, revelam que, por trás do senso comum, existem experiências de frustração, medo e autolimitação, construídas socialmente. Diante disso, uma reflexão nasce: a responsabilidade compartilhada entre família, comunidade, sociedade e poder público, ratificada pelo Estatuto da Pessoa Idosa, para assegurar condições dignas e direitos dos longevos, está sendo cumprida? Até que ponto estamos dispostos a enfrentar nossos preconceitos e transformar a inclusão digital sênior em realidade?

Então, estamos tratando de um futuro utópico quando pensamos maneiras de minimizar as ocorrências da falta de inclusão digital na terceira idade?
A resposta é simples: não.
Emerge, então, o conceito de “letramento digital” que, segundo o portal da Faculdade de Medicina de Petrópolis (UNIFASE), é caracterizado por “Uma abordagem abrangente que vai além do mero domínio técnico das ferramentas digitais. Ele representa a capacidade de compreender, analisar criticamente, comunicar-se efetivamente e aplicar habilidades digitais em diversos contextos. Enquanto a alfabetização digital se concentra nas habilidades básicas para operar dispositivos e software, o letramento digital incorpora uma compreensão mais profunda das implicações sociais, éticas e cognitivas do uso da tecnologia”.
Sendo assim, o princípio básico é o acesso à informação crítica tecnológica, seja em formato de texto, vídeo, imagem, hiperlink ou “das entrelinhas”. É a capacidade de utilizar tecnologias digitais de forma autônoma e segura, rompendo com a lógica da exclusão. É compreender que o uso de tecnologias não é reservado apenas para as novas gerações, que possuem cada vez mais exigências sociais e motivações pessoais precoces em relação aos idosos.
Mais do que antes, os longevos devem ser envolvidos com esse grande ecossistema multimodal de comunicação, informação e cidadania que hoje se organiza, como um dos pilares principais, no ambiente digital. Nesse contexto, existem dois cenários de execução fundamentais para o letramento: o ensino, per se, e o design de experiência.
O ensino corresponde às propostas de programas, oficinas e iniciativas educativas voltadas especificamente para a democratização da utilização e apoderamento das TIs. Em uma perspectiva de respeito, principalmente de ritmo de aprendizado, a literacia digital parte de uma valorização dos conhecimentos prévios e eliminação da lógica estrutural de mecanização e infantilização que frequentemente marca as interações intergeracionais da cibertecnologia.
O letramento digital, com evidência no verbo “ensinar”, utiliza de uma estrutura horizontal, com comunicação e diálogo, para promover a educação como um processo de constante libertação dos idosos. Não basta “pegar e fazer por eles”, é preciso espaços de paciência social, viabilizando a experimentação, repetição e, sobretudo, acolhimento, em que o erro não seja visto como incapacidade, mas como parte natural do processo.
Em um Brasil no qual 29% da população é considerada analfabeta funcional, de acordo com relatório divulgado em 2025 pelo Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf), nota-se que as habilidades em realizar atividades digitais, como fazer compras online, navegar em aplicativos de mensagens e streaming e preencher formulários na web, o referido grupo possuiu maiores dificuldades de realização. Quando se aplica esse contexto ao da terceira idade, que muitas vezes têm um histórico educacional mais limitado, devido a questões históricas da própria educação como direito básico, e menos contato com recursos tecnológicos, esse cenário crítico se intensifica.
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Minha formação escolar foi mais básica e uma educação voltada especificamente para o uso de aparelhos facilitaria o processo e evitaria que eu precisasse pedir ajuda o tempo todo
É por isso que o “ensinar” do letramento digital, como uma estratégia de inclusão e emancipação, faz-se crucial para esse recorte. Diva Silva, doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora na área de saberes docentes e educomunicação, corrobora com essa visão e ainda afirma que “O letramento digital precisa considerar o conhecimento prévio que as pessoas têm, o que elas trazem consigo, para que a partir daí seja problematizado e seja inserido, refletindo sobre o que é o digital”.
Logo, diversas iniciativas têm buscado minimizar esse abismo, porém não se deve esquecer da necessidade de metodologias que dialoguem com a realidade desse público. Nesse sentido, a doutora comenta que a inclusão e a sua respectiva criticidade é um caminho formativo, considerando que “Não é um crachá que você coloca na pessoa e ela se torna crítica, é uma construção cotidiana. Não é entregar nada pronto, não é entregar uma receita, não é considerar se quem está trabalhando com as pessoas têm um saber maior do que elas, porque não há saber maior ou menor. Então, não é tecnificar o sujeito e nem os saberes envolvidos. É criticamente olhar para esses conteúdos a partir de um conhecimento anterior e que foi construído para que se chegasse a técnica”.

O letramento digital promove o pensamento crítico das tecnologias para a comunidade sênior | Foto: National Cancer Institute, Unsplash (2020)
A outra esfera do tema se refere às noções de acessibilidade e usabilidade ideais das TIs, que envolvem interfaces intuitivas e linguagem ajustada. Para idosos, tanto os que estão aprendendo a utilizar as tecnologias quanto os que já sabem, mas querem aprimorar, a experiência deve ser marcada pela clareza na navegação e pelo respeito às suas limitações sensoriais ou motoras. Entretanto, eles comumente se deparam com interfaces confusas, excesso de etapas e ausência de recursos de receptividade, reforçando a dificuldade e a subsequente frustração e exclusão.
Para Sandra Rodrigues, doutora e mestre em Ciências de Computação e Matemática Computacional pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC/USP), bem como pesquisadora na área de acessibilidade, usabilidade e experiência do usuário, a interação entre humano-computador se faz mais complexa e com demanda de grandes ajustes no caso da terceira idade. A sua tese de doutorado “Diretrizes de design para aplicações de Internet das Coisas com foco em pessoas idosas”, demonstra que a usabilidade deve considerar não apenas a tecnicidade, mas também o conforto emocional do idoso diante da tecnologia, e que, se não projetados da maneira correta, podem prejudicá-los e afastá-los desses ambientes.
Assim, após uma entrevista com 11 idosos com mais de 60 anos, Rodrigues constatou que, no aspecto de afirmações positivas, 3 dos 11 entrevistados citaram a necessidade de considerar a acessibilidade em dispositivos digitais. Eles manifestaram que o desenvolvimento de aplicativos, por exemplo, leva em consideração apenas pessoas jovens que já possuem facilidade com essa área, reprimindo o uso por pessoas de intervalos etários maiores.
Curiosamente, o tema de “exclusão social” e a ausência de funcionalidades adequadas para atendê-los em quesitos de adaptabilidade nas tecnologias apareceu também entre as 25 afirmações negativas feitas, no qual, respectivamente, 6 e 3 dos 11 entrevistados fizeram tais observações. Em termos mais claros, independentemente da qualidade das afirmações, positivas ou negativas, a questão central é a acessibilidade digital.
O que se entende nesse cruzamento de dados é revelador: os idosos possuem uma percepção substancial do universo digital e, ainda que muitas vezes não conseguissem expressar em palavras, concordam como certos ciberespaços não são projetados para recebê-los.
Desse modo, o problema não está na falta de interesse desses indivíduos em se apropriar desses recursos, como visto e comprovado anteriormente por Erica Cristine, mas sim na maneira como esse universo é projetado. Logo, o design de experiência, dentro de um contexto de letramento digital, deve possuir clareza, simplicidade e usabilidade, integrando elementos como letras maiores, contrastes adequados, comandos por voz, navegação intuitiva e feedback. Mais do que adaptar sistemas já existentes, trata-se de pensar, desde a origem, em ferramentas que dialoguem com a diversidade de usuários, incluindo os mais velhos.
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A usabilidade deve considerar não apenas a tecnicidade, mas também o conforto emocional do idoso diante da tecnologia, e que, se não projetados da maneira correta, podem prejudicá-los e afastá-los desses ambientes
Quando as duas condições são oferecidas, os resultados são claros: autoestima fortalecida, autonomia ampliada e redução significativa da sensação de dependência ou exclusão. E o letramento digital cumprirá seu papel.

No cruzamento entre a digitalização da sociedade e os idosos, a área da gerontecnologia surge como a fusão entre o estudo do envelhecimento (gerontologia) com a inovação tecnológica.
O conceito surgiu como prática profissional no fim do século XX e rapidamente ganhou espaço em países onde o envelhecimento populacional é mais acelerado, como o Japão, que, de acordo com dados da BBC, uma em cada dez pessoas tem 80 anos ou mais. Algumas das tecnologias do país para melhorar a qualidade de vida, bem-estar e inclusão digital dos idosos consistem em QR Codes nas unhas para memória e o amplo uso dos robôs sociais.
Na Coreia do Sul, onde sua população é considerada “super envelhecida”, com os idosos ocupando 20% da população total, iniciativas governamentais para letramento digital e soluções inovadoras como o robô ultraleve vestível, para auxiliar idosos com baixa força muscular, fazem parte dos avanços do país asiático na área.
Apesar do destaque à robótica, a gerontecnologia não se resume apenas a robôs. Ela abrange uma ampla gama de iniciativas e ferramentas, que vão desde aplicativos móveis com interfaces simplificadas, até casas inteligentes adaptadas, sensores de monitoramento de saúde, próteses inteligentes e plataformas digitais que facilitam a comunicação familiar e o acesso a serviços e transporte públicos.
Em outras palavras, trata-se de um campo voltado a criar condições para que a tecnologia esteja presente no dia a dia dos idosos de maneira natural, funcional e inclusiva.
No Brasil, a gerontecnologia ainda é uma área em consolidação. Apesar dos avanços promovidos, sobretudo nas universidades federais e estaduais como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e a Universidade de São Paulo (USP), ainda há desafios para serem solucionados. Patrícia Bet, como uma das pesquisadoras com maior expertise do campo, comentou sobre a situação: “Embora o custo da tecnologia tenha sofrido uma queda nos últimos anos, ainda existe uma alta despesa para alguns desses dispositivos e para a infraestrutura necessária para sua aplicação em larga escala. Em relação aos aspectos culturais e educacionais, ainda existem barreiras como aceitação e estereótipos que desmotivam a sua utilização, além da falta de políticas públicas e inclusão digital e letramento para a população idosa”.
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Na Casa Ondina Lobo, uma instituição de longa permanência (ILPI), sem fins lucrativos e totalmente filantrópica, localizada no bairro de Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo, uma figura diferente e com aspecto futurista chamou a atenção dos moradores: um robô social desenvolvido para interagir e conduzir idosos durante o jogo de bingo.
O projeto de pós-doutorado da pesquisadora Patrícia Bet, intitulado “Robôs sociais como recurso tecnológico para o letramento digital de idosos residentes em instituições de longa permanência”, com supervisão da professora e doutora em Gerontologia Meire Cachioni, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Centro de Inteligência Artificial da USP (C4AI-USP), via suporte da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e IBM Corporation, propõe e apresenta o potencial do uso de robôs sociais em atividades recreativas realizadas nas instituições de longa permanência brasileiras.
Também faz parte de uma pesquisa mais ampla, financiada pelo próprio CNPq, intitulada “Efeitos da interação com robôs sociais no engajamento cognitivo de idosos com demências residentes em Instituições de Longa Permanência para Idosos”. O objetivo é avaliar se a interação com robôs sociais pode aumentar o engajamento cognitivo de idosos com demência em ILPIs, oferecendo uma ferramenta complementar ao cuidado tradicional e promovendo estímulos mentais e sociais de forma lúdica e segura.
O escolhido para conduzir a atividade foi o Robios, da empresa Human Robotics, um robô em formato de totem interativo, capaz de reconhecer fala, responder com voz, exibir expressões faciais animadas e conduzir dinâmicas coletivas. Neste caso específico, ele foi programado para apresentar uma voz masculina suave e exibir emoções como surpresa e felicidade.

Entretanto, para que o Robios pudesse chegar à Casa Ondina Lobo e interagir com os idosos, houve um processo de preparação cuidadoso. O projeto passou por etapas de desenvolvimento, desde a escolha do robô até a definição de como ele seria inserido no ambiente institucional.
O primeiro passo foi um mapeamento do bem-estar dos idosos. A equipe de pesquisadores recorreu a Modelos de Linguagem de Grande Escala (Large Language Models ou LLMs), como o Chat GPT-4o, para identificar e organizar 81 escalas internacionais de avaliação de bem-estar, que depois foram validadas por especialistas em gerontologia. A partir desse levantamento, foram definidos 24 aspectos principais de bem-estar agrupados em cinco dimensões: saúde cognitiva e mental, qualidade de vida e interação social, saúde física, saúde geral e atividades da vida diária.
A escolha do jogo “bingo” não foi por acaso: trata-se de uma prática culturalmente familiar para os idosos, com baixo grau de dificuldade e alto potencial de engajamento social, aumentando a interatividade e reduzindo o isolamento.
A atividade foi realizada de forma tradicional, com cartelas de bingo contendo 25 números (5x5), de 1 a 75, distribuídas aos participantes. Dessa forma, o robô chamava aleatoriamente os números, que deveriam ser marcados pelos jogadores em suas cartelas caso estivessem presentes. O jogo seguiu a modalidade cartela cheia, em que o vencedor é o primeiro a preencher toda a cartela. Cada número era repetido pelo robô três vezes para garantir que todos pudessem acompanhar.




A reação dos participantes surpreendeu. Muitos idosos, inclusive aqueles com diagnóstico de demência, acompanharam a atividade com entusiasmo, riram, brincaram e até pediram que o jogo não terminasse. Houve também momentos de impaciência, quando o robô repetia em excesso os números. Mas justamente nesses detalhes está a riqueza deste tipo de experiência: a tecnologia não foi recebida de forma passiva, mas sim como algo que despertou engajamento genuíno.
“Durante as sessões, as reações foram diversas: alguns idosos, principalmente aqueles com grau de comprometimento cognitivo maior, conversaram com o robô como se ele fosse uma pessoa; uma minoria se demonstrou impaciente e até relutante para continuar na atividade; e outros compreenderam que estavam diante de um robô e o tratavam como tal, mas sempre de maneira bem-humorada, realizando comentários positivos durante as sessões e até imitando a voz e forma como o robô conversava”, comenta Patrícia.
O potencial de uma iniciativa como essa vai além da diversão momentânea, recreação dos residentes e um primeiro contato com a tecnologia. Ele atinge aspectos fundamentais do envelhecimento saudável, como o estímulo cognitivo, o engajamento social e a redução da solidão. Ao participar de uma atividade conduzida pelo Robios, os idosos não apenas se distraem, mas também exercitam memória, atenção e linguagem, habilidades essenciais para manter a mente ativa.
Em contextos de ILPIs, o isolamento e monotonia fazem parte da rotina dos idosos. Ronan Sávio, ex-assistente administrativo da Cidade Ozanan, um serviço de acolhimento situado em Pará de Minas, Minas Gerais, afirma que o contato dos residentes com a tecnologia é escasso, muitas vezes limitado a TVs e reprodutores de música. Além disso, sentimentos como tristeza e solidão estão presentes na maior parte do tempo: “A realidade que a gente vive lá dentro, muitos cá fora não percebem, não sabem e nem tomam consciência. Os idosos relatam para a gente que é como se eles fossem descartados pela sociedade e pela própria família”.
Nesse sentido, a iniciativa promove, além do contato com o digital, um ganho emocional para os sêniores. O simples fato do robô sorrir, reagir com expressões faciais ou falar frases típicas de um jogo de bingo tradicional como “dois patinhos na lagoa” pode despertar nos participantes sentimentos de acolhimento e curiosidade. São pequenos gestos que, mesmo que aparentam banais, tornam-se significativos na rotina daqueles dentro de uma instituição de longa permanência.
Sobre os benefícios e suas condições a longo prazo, Bet explica: “Para promoção a longo prazo, seria essencial que as interações propostas durante as sessões com o robô fossem sempre diversificadas, como a inclusão de atividades em grupo e não apenas individuais, além de que os residentes pudessem participar da escolha das atividades a serem desenvolvidas e o que o robô fosse incluído como algo natural na rotina da instituição como um todo”.
A respeito dos desafios para implementar a solução em diversas residências de longa permanência, os principais estão relacionados a questões de privacidade, o custo dos robôs (que ainda permanecem altos), a aceitação deste tipo de tecnologia e a capacitação dos profissionais, visto que a tecnologia citada é um mediador de atividades e não um condutor autônomo.

Marcelo Fantinato, docente da EACH e coordenador da parte de robótica do projeto, operando Robios | Fonte: Arquivo pessoal (2024)
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O ponto chave do uso do Robios representa mais do que apenas jogar bingo com um robô, é a capacidade de se transformar em uma porta de entrada para o letramento digital. Ao interagir com ele, livre de pressões e de forma natural, os idosos descobrem que a tecnologia não precisa ser algo distante, complicado ou ameaçador. O simples ato de ouvir a sua voz, dar “oi” para o Robios, responder aos comandos ou rir de suas expressões animadas, cria um primeiro vínculo positivo com o universo digital.
Essa experiência lúdica e acolhedora ajuda a reduzir barreiras emocionais que muitos idosos carregam, como o medo de “quebrar” um aparelho ou de não conseguir acompanhar instruções. Diferentemente de um smartphone ou de um computador, que pode parecer confuso e desafiador, o Robios oferece uma interação simples, amigável e coletiva. Inclusive, esse é um dos pontos que diferencia o projeto de outras iniciativas digitais, já que não é necessário possuir ou interagir com tecnologias que já carregam algum estigma.
Através do Robios, os idosos são convidados a coparticipar com uma tecnologia de forma descontraída e sem a pressão do desempenho. A experiência com o robô se torna um trampolim para outras interações. Ao perder o medo e se sentir mais confiante, o sênior se abre para explorar outras ferramentas digitais, como redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de videochamada, que são cada vez mais essenciais na sociedade moderna.

Residentes da Casa Ondina Lobo jogando Bingo com a mediação de Robios | Fonte: Arquivo pessoal (2024)
Mais que isso, a inclusão digital proporcionada, que acompanha a especificidade da idade sênior, é por si só um ato de cidadania e emancipação. Nem tudo precisa ser complexo, e o segredo está na abordagem humana e no design com acessibilidade. Quando a tecnologia é pensada para também incorporar os desejos daqueles que muitas vezes não são lembrados quando o assunto é tecnologia, ela se torna uma poderosa ferramenta de transformação.
“Conseguimos observar que os idosos participantes passaram a demonstrar grande interesse em outras tecnologias e tivemos relatos de idosos que pediram para os familiares comprarem tablets para eles conseguirem acessar a internet após a interação com o robô reduzir o medo de interagir com a tecnologia”, diz Bet.
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Estar fora do ambiente digital hoje não se resume à ausência do acesso às redes sociais: implica perder oportunidades de contato, acesso a serviços básicos, cuidados em saúde e ganhos cognitivos significativos. Por isso, a inclusão e o conhecimento digital de idosos não é apenas uma questão tecnológica, mas também um direito de inclusão e dignidade tão falados no Estatuto da Pessoa Idosa.
Nesse contexto, a iniciativa de gerontecnologia mostra como é possível transformar a relação dos idosos com a tecnologia. O robô não substitui cuidadores nem resolve sozinho os desafios do envelhecimento, mas oferece algo que muitas vezes falta nas abordagens tradicionais: a possibilidade de se digitalizar se divertindo, sem cobranças e sem a sensação de inadequação.
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Nem tudo precisa ser complexo, e o segredo está na abordagem humana e no design com acessibilidade
Sua força inovadora não está apenas em levar máquinas para dentro das instituições, mas em construir pontes entre gerações que, a longo prazo, podem gerar benefícios cognitivos e emocionais, contribuindo para um envelhecimento saudável e inserindo cada vez mais idosos em ambientes nos quais muitos não se consideravam dignos de estar.
Por mais soluções inovadoras que possam mostrar que não se tem idade certa para fazer uma conexão.
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